Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Quem contrataria Gilmar Mendes para dirigir um jornal?

Que o ministro Gilmar Mendes, tragicamente elevado à condição do Supremo Tribunal Federal, foi irônico e de um pedantismo sem tamanho quando exerceu a função de relator do processo que extinguia a exigência de diploma universitário para jornalista, ninguém duvida. A não ser, claro, veículos de comunicação, como a revista "Veja", famosos pela linha ultradireitista que impõem a seus leitores e que, num editorial fantasmagórico, enaltece a decisão do STF, em especial as palavras de seu presidente. Mas mesmo aí, há que se respeitar a linha ideológica de rádios, TVs e jornais, porque imprensa está longe de viver à mercê de supostos dons que, sinceramente, já não cabem na contemporaneidade se não tiverem o amparo sólido do conhecimento científico; para se enquadrar num ofício sério, comprometido com o sacro dever de reportar à sociedade versões de fatos merecidamente transformados em notícia. Não existe imparcialidade na imprensa. Há esforço para se alcançar a isenção, a partir da multiplicidade de fontes. Daí que se torna louvável, e necessário, o posicionamento, o direcionamento para determinado ponto.

Mas voltemos ao centro da questão. O jornalista Alberto Dines escreveu artigo esclarecedor sobre o imbróglio, que vale a penas ser digerido, degustado:

Quem contrataria Gilmar Mendes para dirigir um jornal?

* Alberto Dines

Mesmo os inimigos do ministro-presidente do STF Gilmar Mendes são obrigados a reconhecer o seu vasto saber jurídico, sua cultura, sua capacidade de expressar-se com tanta clareza e elegância como também seu conhecimento do idioma alemão.

Diante da sua obsessão em demonstrar que o jornalismo não é uma profissão e, portanto, não precisa ser regulamentado, este Observador sente a necessidade de repetir, ampliar e reformular a pergunta dirigida ao professor e ex-ombudsman da Folha e do iG Mario Vitor Santos na edição da semana passada (23/6) do Observatório da Imprensa na TV:

– Você contrataria o presidente do STF para dirigir o seu jornal?

Sua Excelência certamente perdoará a provocação cuja única finalidade é oxigenar e animar um debate que ao longo dos últimos 24 anos serviu para vocalizar apenas um lado da questão – o dos empresários.

A querela a respeito do diploma, ou melhor, do fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo, é secundária. Outra deve antecedê-la: jornalismo é profissão, ocupação, ofício, ferramenta de trabalho? Ou, além disso, também é missão, tal como a de um magistrado, treinado para destrinchar a dialética dos códigos, administrar a justiça e ser justo?

Ensinar e aprender - Este Observador jamais contrataria o ministro Gilmar Mendes para dirigir qualquer veículo jornalístico apesar do seu imbatível curriculum jurídico. Mas entregaria o seu hipotético jornal a um profissional diplomado em jornalismo, de preferência com uma pós-graduação profissionalizante, pelo menos 25 anos de experiência em redações e, principalmente, capacitado para assumir o papel de mediador, questionador e agente das transformações.

No seu arrazoado contra o diploma e contra a especificidade da profissão de jornalista, o ministro Gilmar Mendes esquece o seu notório domínio do idioma alemão. Não lembrou que Zeitung, jornal, deriva da raiz Zeit, tempo. Jornalismo em português ou Journalisme em francês (de Jour, dia, jornada) são atividades cruciais numa sociedade porque lidam com a passagem do Tempo.

Uma sociedade desatenta para as inevitáveis mudanças está perdida, torna-se apática ou desarvorada.

Jornalistas marcam o tempo, verdadeiros ritmistas, mas ao contrário dos relojoeiros lidam com um tempo que não jorra contínuo. O tempo jornalístico é periódico, marcado pelas sucessivas edições, condicionado para a complexa tarefa de sintetizar o acontecido no período (daí periodismo em espanhol).

Passar ao leitor a sensação de que é testemunha e participante de um amplo processo exige conhecimentos teóricos, técnicos e também uma disposição instintiva para pressentir o que é novo e o que importa. Escritores raramente retomam seus textos depois de impressos. O ponto final é ponto final mesmo.

Jornalistas são treinados para a infindável tarefa de reescrever-se continuamente. Este treinamento começa nos bancos das escolas de jornalismo. Nas redações não há tempo para filosofar. Nem há tempo para olhar-se no espelho e reclamar. O mundo para os jornalistas é verdadeiramente redondo, rotativo, rotativa.

É a tal unendliche Aufgabe (tarefa infindável), ministro Gilmar Mendes, citada por Kant. Esta tarefa não é para qualquer um. Não é fruto de um estalo, golpe de sorte – precisa ser ensinada e aprendida. A perseguição contínua de uma tarefa é em si, uma atitude claramente profissional.

Obra de jornalistas - O relatório do ministro Gilmar Mendes estende-se por 91 páginas sobre a profissão de jornalista e, mesmo sintetizado, jamais seria entendido pelos leitores de jornal, mesmo de um quality paper. Há nele uma ironia que roça à presunção. É um antijornalismo em estado primitivo. Ao comparar jornalistas aos chefes de cozinha o ministro Mendes tenta fazer blague. Nós jornalistas não gozamos as togas usadas nos tribunais, nem mesmo as ridículas perucas dos magistrados britânicos. Respeitamos as tradições, somos os primeiros a perceber quando se tornam obsoletas.

O ministro, porém, ignora que sem jornalismo e sem jornalistas os historiadores teriam que inventar fatos. Ou contentar-se com documentos áridos, insossos, muitas vezes truncados e às vezes manipulados para parecerem verdadeiros. A história moderna, a crônica dos últimos 400 anos, deve muito aos profissionais do jornalismo.

Uma hemeroteca, Excelência, é o panteão da humanidade. Obra construída majoritariamente por jornalistas. Este Observador não contrataria um advogado ou mesmo um jurista renomado para montar uma coleção de jornais. Nem mesmo para editá-los.

* Jornalista e Editor do Observatório da Imprensa

Domingo, 28 de Junho de 2009

Quem continuará o sonho?

A morte de Michael Jackson assemelha-se à de Elvis Presley não só pelas circunstâncias trágicas - as primeiras evidências apontam que Jackson, de 50 anos, fazia uso abusivo de analgésicos e, até hoje, médicos não compreendem como Presley conseguiu chegar aos 42 anos com tanta droga no corpo -, mas sobretudo em virtude do vazio deixado no mundo artístico. Sinceramente, é difícil recordar algum ídolo pop contemporâneo que tenha o peso de um dos dois. O único que lembro é de Mick Jagger e seu antológico Roling Stones. Quando digo isso remeto ao fascínio de todo um trabalho que provoca encanto, espanto, surpresa, fisson na crítica, curiosidade e expectativa pelo próximo passo do artista.

Falar de Michael Jackson traz à mente, até daquele menos letrado em cultura, o menininho do Jackson Five a entoar "Ben", que encarna à perfeição a década de 70, e, no começo dos anos 80, o lançamento estrondoso do brilhante álbum "Thriller", que inovou a música, a dança e o videoclip. De Elvis Presley impossível esquecer a perfeição do hit "Jalhoise Rock" ou "Prisioneiro do Rock" e, no filme homônimo, a coreografia do momento em que Elvis, acompanhado de um grupo de rapazes, interpreta a música-título a caráter, vestido de prisioneiro, no que é considerado o pai dos videoclips, ou as famosas turnês, realizadas após quase dez anos afastado dos palcos, na década de 70. Uma delas teve a primeira transmissão via satélite da história.

Pois bem. Na infertilidade do terreno artístico fica a pergunta: quem continuará o sonho? Certamente há algo muito errado com nosso tempo... .

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Luto na música: Michael no Jackson Five

Aqui, o pequeno Michael Jackson interpretando a bela "Ben", música que encarna a década de 70 à perfeição. Quem viveu esses anos há de concordar... .

Luto na música

Mais do que os escândalos que marcaram os últimos tempos de sua vida artística, as tentativas insanas de embraquecimento da pele (muitas vezes sustentadas como tratamento médico) e as acusações de pedofilia, Michael Jackson deve ser lembrado pelas preciosidades que deixou para a música pop mundial. Nos áureos tempos do Jackson Five, na década de 70, foram várias pérolas como, por exemplo, "Ben", cantada por ele, ainda criança. Esse hit é a cara do período. Nos anos 80, Jackson presentou o planeta com o maravilhoso álbum Thriller, que inovou a música, a dança e o videoclip.

Michel morreu quinta-feira, 25 de junho, vítima de parada cardíaca. Ele fazia sucessivos esforços para retornar às grandes turnês, após 12 anos de ausência, com o uso abusivo de remédios. Disso tudo fica a impressão amarga de que Jackson não precisava morrer tão jovem. Tinha apenas 50 anos.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Biscoito fofão com catraca de caminhão, alguma coisa em comum?

É impressionante como os entusiastas do fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo simplificam a questão. Arvoram-se em levantar a bandeira da liberdade de expressão como argumento. Ora, liberdade de expressão pressupõe toda e qualquer forma de se manifestar, enquanto liberdade de imprensa requer desenvoltura para resportar ao público o que seja de interesse público, entende? A imprensa é o "modus operandi" da notícia, feita por quem sabe ordenar ideias de forma a encontrar e respeitar a versão que condiz com a linha editorial do jornal, rádio ou TV em que trabalha. No caso da internet, entrariam apenas os portais desses veículos, evidentemente conduzidos de ou a partir de regras em vigor numa redação.

E qual o conceito de notícia? O fato que interfere, direta ou indiretamente, na vida da comunidade. O inusitado, etc etc etc . Tudo que beneficie a coletividade ou que, de alguma maneira, atraia a atenção. Há nos jornais a sessão "Opinião", espaço onde o leitor pode escrever, dar seu parecer a respeito de determinado assunto, desde que saiba o mínimo de português. Daí permitir o uso da primeira pessoa (tanto do singular como do plural), algo impensável na matéria jornalística, que deve buscar sempre a isenção por meio da multiplicidade de fontes. O jornalista procura distanciar-se ao máximo do acontecimento e narrar apenas, embora a imparcialidade seja algo impossível.

Pois bem. À medida que leio artigos ou mesmo matérias sobre a estapafúrdia decisão do Supremo Tribunal Federal fico mais convencida da confusão - se intencional ou não, sinceramente não sei - que se estabeleceu em torno do imbróglio. Fica a impressão de que o jornalismo virou casa de ninguém, sem qualquer limite ou exigência, semelhante ao começo da atividade, lá pelos séculos XVII e XVIII, quando o idealismo imperava soberano. A paixão movia aguerridos defensores da liberdade. Só que, na época, em pleno Iluminismo, em que a humanidade vivia o momento ímpar da dupla revolução - Francesa (1789) e Industrial (1846) -, a mudança de mentalidade e o surgimento de nova ordem sócio-político-econômica impulsionaram a então nascente imprensa (leia-se impressão de jornais). Hoje, a realidade é outra e exige bem mais que viver à mercê de supostos dons, sem qualquer formação específica ou conhecimento científico.

A diferença de uma faculdade é que ela ensina o porquê e as consequências do fazer. Trata-se de laboratório, de pesquisa, sempre com o objetivo de melhorar, no caso a Comunicação Social enquanto ramo do conhecimento.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Fim da obrigatoriedade do diploma para jornalista: história ainda não acabou

* Ingrid Furtado e Luciane Evans

Um dia depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) abolir a exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, defende que o Congresso aprove lei que exija o curso superior para exercer o jornalismo. Segundo ele, basta que um parlamentar tome a iniciativa para que a questão comece a ser discutida. Costa afirma que, como há muitos questionamentos sobre o tema, a Casa precisa entrar no debate. "O Supremo decide apenas se a questão é inconstitucional ou não. Mas acredito que o Congresso é o fórum ideal para discutir o assunto e não a Justiça. Vale a pena encontrar um caminho para oficializar a importância do diploma”, observou. No entanto, há correntes que afirmam que a decisão é irreversível. Para o advogado-geral da União, José Antonio Dias Toffoli, será preciso “muita criatividade” para mudar a situação.

O ministro reforça que o jornalismo trata de assuntos sensíveis e que, em função disso, pode ser comparado a outras profissões que têm grande necessidade do diploma. “Eu me formei nas redações de jornais e por isso mesmo acredito que o ambiente acadêmico é fundamental. Antigamente, aprendíamos tudo nas redações, pois não havia faculdades. Mas a situação hoje é completamente diferente. A pressão é muito maior. O jornalismo é mais sofisticado e, por isso, exige uma formação apropriada”, diz Costa. Ele sugere que, inicialmente, sejam feitas audiências públicas com a participação da categoria, deputados e senadores com o objetivo de estruturar uma lei que regulamente a profissão. Costa disse ainda não ter considerado um deboche a declaração do presidente do STF, Gilmar Mendes, que comparou a profissão de jornalista com a de um cozinheiro. "Não acho que ele quis debochar. Mas é uma comparação infeliz”, completou.

Sem a obrigatoriedade do diploma para o profissional de imprensa, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) vai interpelar o Ministério do Trabalho sobre os critérios necessários para exercer a profissão. A federação marcou também uma reunião no mês que vem, em São Paulo, com representantes de todos os sindicatos da categoria para discutir estratégias para tentar anular a decisão do Supremo.

Para o presidente da Fenaj, Sérgio Murilo de Andrade, a determinação do STF é irresponsável. “É natural que quando uma categoria perde a identidade, como ocorreu, ela fique mais fragilizada e, por isso, é mais fácil que as condições trabalhistas conquistadas ao longo de 40 anos sejam ignoradas. A decisão significa que uma pessoa analfabeta pode também ser jornalista. Isso é um absurdo”, afirma Andrade. Ele defende a necessidade de criar um conselho federal que organize e mobilize a categoria. “Há teorias e ética específicas sobre o jornalismo que não se aprendem da noite para o dia”, defende o jornalista. Especialistas no mercado de trabalho estão divididos quanto à decisão do supremo mas afirmam que mudanças mais drasticas vão ocorrer somente a médio e a longo prazo. Para o técnico da pesquisa de emprego e desemprego da Fundação João Pinheiro, Plínio de Campos Souza, a não exigência do diploma significa aumento da concorrência. “Obviamente, vai ocorrer a elevação dos possíveis concorrentes para uma vaga de jornalista, pois a falta de regulamentação significa a perda de reserva de mercado. Mas ainda é difícil prever o impacto dessa medida”, afirma o pesquisador. Ele acredita que será muito mais difícil que um profissional de outra área consiga uma vaga como jornalista. “Ele terá que ser muito bom mesmo, pois a cultura da necessidade do diploma já é estabelecida no Brasil, mesmo com a negativa do Supremo. Por isso, vai demorar para essa lógica mudar”, afirma o especialista.

* Repórteres do jornal Estado de Minas

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

As empresas venceram. Por enquanto

*Aloísio Lopes

O jornalismo deixou de ser uma profissão regulamentada desde ontem (17/06), quando oito ministros do Supremo Tribunal Federal, de um total de nove presentes, aprovaram o voto do ministro Gilmar Mendes, em julgamento do recurso sobre sentença do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, que mantinha a exigência de diploma de jornalismo para o exercício da profissão, por sua vez questionado em Ação Civil Pública, que havia obtido liminar favorável em 2001.

A decisão do STF não apenas declarou a inconstitucionalidade do Decreto 972/69, que regulamentou a profissão, como foi adiante e declarou que a Constituição da República proíbe a regulamentação dessa profissão. Para o STF, o artigo da Constituição que remete à lei ordinária a função de estabelecer as qualificações para o livre exercício de qualquer profissão, não se aplica ao jornalismo, em função da Convenção Americana (Pacto de San José da Costa Rica). Essa Convenção estabelece que nenhum país poderá exigir qualquer condição para a atividade jornalística. Essa exigência, segundo os magistrados da Suprema Corte, fere a liberdade de expressão, garantida aos brasileiros no artigo 5° da Constituição. A ‘liberdade de profissão’, que vinha sendo confundida com ‘liberdade de expressão’, agora será facultada a qualquer cidadão, independente de formação profissional, de registro, de nada. Caberá às empresas definirem quem é jornalista. À sociedade, ler, ouvir e assistir ao que as empresas melhor acharem.

O voto do presidente do STF, acompanhado pela maioria de seus pares, refletiu exatamente a posição do “baronato da mídia” brasileira. Para ele, o jornalismo é um exercício puramente intelectual, que não carece de nenhuma qualificação técnica, e ainda, que o jornalista não causa prejuízo à vida e à saúde da população, e comparou a profissão com a de chefe de cozinha ou de corretor de imóveis. A regulamentação, segundo ele, só se justifica para profissões que reclamam qualificações especiais. E declarou a impossibilidade de criar qualquer tipo de controle social, se referindo a Conselhos Profissionais e Ordens. Para fechar a posição do patronato, Gilmar Mendes indicou o caminho da autorregulação, “cujas condições devem ser estabelecidas pelos próprios meios”.

O ministro Ayres Brito, chegou a citar Machado de Assis, como exemplo de excelente jornalista sem diploma. Segundo ele, jornalismo é literatura. Esqueceu-se de citar os excelentes juristas que já ocuparam cadeira no STF e que não tinham formação em direito. Aliás, por uma questão de transparência, seria interessante conhecer as qualificações de cada membro da mais alta instância do Poder Judiciário. Quantos são juízes, procuradores, os que trabalharam em empresas de comunicação, indústria e órgãos públicos.

O único voto discordante foi do ministro Marco Aurélio Mello, para quem o jornalista deve ter formação básica para entrevistar, pesquisar, editar, pois “ quando se exige a formação, tem-se em vista a prestação de serviço de maior valor”. Para ele “não basta a formação prática”.

Chamou-me a atenção a posição da ministra mineira Carmen Lucia Rocha, que louvou e acompanhou o voto do relator. Neste caso, a posição técnica sobre a inconstitucionalidade do Decreto 972/69 já era esperada. Mas pregar que a Constituição proíbe a regulamentação da profissão de jornalista e que esta não exige nenhuma formação para seu exercício, foi um retrocesso de muitas léguas, como se diz no interior do Minas.

E agora?

Enquanto aguardamos a publicação do Acórdão, preocupações de toda ordem inquietam os jornalistas. Como os diplomados se protegerão no mercado? O estudante deve continuar matriculado? A jornada de 5 horas está garantida? Os sindicatos vão aceitar a sindicalização de precários?

A decisão do STF não atingiu a legislação trabalhista (CLT) onde está garantida nossa jornada especial, embora seja inegável o assanhamento patronal para esta questão. A organização sindical é livre e caberá às entidades (direção e categoria) definir eventuais mudanças em seus estatutos para receber novas adesões. Na década de 80, discutíamos a criação do ramo da comunicação, independente das diferenças intercategoriais. Essa seria uma resposta ao patrões?

Mas nossas preocupações não se restringem ao corporativo. A sociedade é a principal prejudicada com a desregulamentação da profissão de jornalista. Como garantir a ela, a partir de agora, um jornalismo de qualidade, que dignifique o direito à informação? Esse, que não foi a preocupação do STF, é o nosso grande desafio. Buscar formas de regulação que garantam a independência da atividade jornalística no país, em benefício da liberdade de expressão é a nossa pauta.

*Ex-presidente do SJPMG – Atual Diretor de Relações Institucionais do órgão

Fim da exigência do diploma para jornalista: mais um deboche no Brasil

Ei, você, que escreve uma frase aqui, outra acolá, não quer fazer uma "boquinha" como jornalista? Agora é oficial. Você pode. Sério! O Supremo Tribunal Federal acaba de derrubar a exigência de diploma universitário para o exercício da profissão. Foram oito votos a um e ausência de dois ministros, numa sessão em que o relator da matéria, o presidente da Corte, Gilmar Mendes - aquele mesmo que ficou famoso pela cessão de habeas corpus ao banqueiro Daniel Dantas, acusado de crimes financeiros, ao lado do megainvestidor Naji Nahas e do ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta; e que foi acusado publicamente pelo seu par, ministro Joaquim Barbosa, de ter capangas em suas fazendas no Mato Grosso - chegou a comparar os jornalistas a cozinheiro. Sem desmerecer a dignidade do segundo, o comentário do impopular Gilmar Mendes foi de uma infelicidade sem tamanho, dado à abissal diferença entre os dois ofícios. Mas do ministro não se poderia esperar outra coisa, visto que sua trajetória denuncia queda doentia pelo poder. E nada melhor que demonstrar isso e atender interesses das empresas de comunicação. Uma posição tão previsível quanto contraditória. No mesmo texto em que defendeu o fim da obrigatoriedade do ensino superior para jornalismo, Gilmar Mendes disse ser um erro desvalorizar tais cursos e a formação universitária.

A lambança está feita, contudo. Lamentavelmente feita e sacramentada. No caso do Brasil, não chega a ser surpresa a decisão esdrúxula. O que esperar de um país onde a educação básica está no lixo e os professores mal ganham para sobreviver? Que dizer, então, da academia, por excelência laboratório do saber, do aperfeiçoamento e da sustentação da praxis? Ora, ainda que as faculdades de Comunicação Social continuem a existir e que caberá às empresas do setor decidir se solicitam ou não a formação superior para seus funcionários, o ultimato do STF figurou como duro golpe na seara da notícia e, diga-se de passagem, no direito da sociedade de ter acesso à informação séria e bem apurada. Pura balela o argumento de que a exigência do diploma golpeava a liberdade de expressão. Salvo melhor juízo, o contrário é que seria o correto, porque, dessa maneira - com atenção redobrada ao preparo intelectual e técnico de quem desejasse exercer o jornalismo -, evitaria a transformação da Comunicação Social numa casa de ninguém.

Outro ponto batido é o de que a exigência do diploma surgiu na ditadura para facilitar a censura. Pelo amor de Deus, que absurdo! Os Anos de Chumbo não precisaram de artifício assim para amordaçar as redações. Bastou o uso da baioneta e de ameaças veladas... . Um ramo do conhecimento nunca pode ser desprezado, sobretudo devido à oportunidade ímpar de dar vazão à pesquisa em prol do desenvolvimento. Afirmar que algo do tipo legitimaria a opressão... . Tenha dó!

Resta-nos apenas lamentar, pois. Lamentar mais um destempero, que se une a outros tantos, especialmente na política debochada que mancha a história desta nação a todo momento. A ponto de o presidente do Senado, o ex-presidente José Sarney, acuado diante do mar de denúncias de corrupção na Casa que comanda, usou da tribuna para fazer apologia de si mesmo. Disparou em alto e bom som que não poderia ser julgado porque seu passado é de lisura inquestionável... ! Trocando em miúdos: está acima do bem e do mal! Vê? Num país assim, como esperar valorização do censo crítico herdado do estudo?

Domingo, 3 de Maio de 2009

Cruzeiro bicampeão mineiro

O Cruzeiro é bicampeão mineiro invicto. A Raposa atinge a façanha pela 10ª vez na história, num total de 35 confrontos. Mas o resultado que oficializou o título 2009 para a Toca foi um empate em 1 a 1 com o Atlético, agora à tarde, no Mineirão. Bem diferente do primeiro jogo da decisão, no domingo passado, dessa vez os celestes enfrentaram um Galo competitivo, longe daquele time apático, dono de um futebol ridículo apresentado no segundo tempo da partida de ida.

Pode-se dizer até que o alvinegro recuperou a dignidade. Tanto que jogou melhor a etapa inicial hoje e abriu o placar. O Cruzeiro igualou em cobrança de pênalti minutos depois, mas perdeu-se em campo, pressionado pelo arquirrival, que manteve o ritmo até o intervalo. No segundo tempo, o Cruzeiro melhorou, sobretudo após a expulsão de Carlos Alberto. Mesmo com um atleta a menos, o Atlético não se entregou. Continuou lutando até o apito final. O Cruzeiro mereceu o título pelo que mostrou no certame inteiro e pela larga vantagem conseguida, depois de golear o adversário por 5 a 0. Podia perder por até quatro gols de diferença que, ainda assim, levantaria a taça.

Vale lembrar que o ténico alvinegro, Emerson Leão, mais uma vez foi vítima de um temperamento explosivo. Ofendeu o árbitro com palavreado de baixo calão no começo do intervalo do primeiro para o segundo tempo. Ele não se conformou com a atitude de Leonardo Gaciba da Silva, que anulou gol do atacante Diego Tardelli, aos 43 minutos da etapa inicial, sob alegação de impedimento. Comentaristas deram razão ao juiz, que não perdoou e acabou expulsando Leão.

Também o Cruzeiro teve seu momento triste. Wellington Paulista provou que não está pronto para ser titular. No final da partida, com a garantia do campeonato para a Raposa, o jogador partiu para cima de Welton Felipe, que agrediu o cruzeirense Kléber violentamente e já tinha recebido cartão vermelho. Confusão desnecessária. Já pensou um comportamento desse numa final de Libertadores?

De qualquer maneira fica o grito de alegria: Zeiroooooooooooooooooooooooooooo! Foto manuel Pinheiro/EM/D.A Press

Lei de Imprensa cai em meio à crise econômica e risco de pandemia

A revogação da Lei de Imprensa não causou o impacto que deveria na sociedade. Creio que o motivo seja uma mistura insólita que deixou os brasileiros em estado de choque: crise econômica mundial e possibilidade de pandemia de gripe suína, salpicadas com sucessivos escândalos no Congresso Nacional e perda de compostura de dois ministros do Supremo Tribunal Federal. O resultado é que a decisão do STF de jogar a última pá de terra no combalido arcabouço jurídico quase passou em brancas nuvens, muito aquém da importância que representa para o bom desenvolvimento de (in)formar a opinião pública no país.

De qualquer forma, vale comemorar, e muito, a extinção daquele monstrengo criado no calor dos anos negros da ditadura militar, pouco mais de um ano antes da promulgação do Ato Institucional nº 5, que praticamente acabou com as liberdades individuais no Brasil. Dos 11 ministros da Alta Corte, sete votaram pela revogação total, três pela revogação parcial e um pela manutenção da norma e criação de novas regras. A maioria deles, portanto, jogou para a Constituição Federal e os códigos Penal e Civil a responsabilidade de coibir eventuais abusos da imprensa, sobretudo a partir do direito de resposta.

O presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, ponderou, entretanto, que a revogação total da Lei de Imprensa não impede que sejam erigidas normas específicas para o setor. A expectativa doravante passa para outro julgamento do STF, que decidirá sobre a obrigatoriedade do diploma universitário para o exercício do jornalismo.

Dramaticidade da educação no relato de uma professora

Seguem abaixo trechos da carta que a professoraÁurea Regina Damasceno enviou à Secretária de Educação de Belo Horizonte. Eu os transcrevo do blog do sociólogo Rudá Ricci, para quem "a carta é um depoimento dramático e cru sobre o cotidiano das salas de aula desde sempre desconsiderado pelos gestores da educação de nosso país. Ao contrário, os gestores caminham, com raras exceções, na contramão, confrontando a realidade e penalizando professores. A última invenção, totalmente sem sentido, é a introdução da premiação (ou certificação) para professores que possuem turmas com bom desempenho escolar. Somente quem desconhece a realidade educacional do país poderia elaborar algo tão sem sentido."

“Hoje, dia 19 de março de 2009, vou mais um dia para a escola, desanimada e certa de que as aulas que preparei para os alunos do 3º ciclo, 1º turno, não serão dadas. Mas busco entusiasmo não sei onde, entro para a sala de aula (sala 10, 6ª série) e inicio repetindo o que tenho falado com os alunos desde o primeiro dia de aula: coloquem o caderno, a agenda, o lápis, caneta, borracha, régua, tesoura sobre a mesa e guardem a mochila debaixo da carteira ou dependurada no encosto da cadeira (muitos se deitam, durante a aula, na mochila para dormir ou se escondem atrás dela para dar gritos ensurdecedores sem motivo algum ou para atirar bolinhas de papel enfiadas nocorpo das canetas esferográficas).”

“Essa atividade demanda mais ou menos uns 20 min, pois metade da sala não ouve, ou finge que não ouve, continua a correr pela sala, está virada para trás conversando, está subindo nas bancadas sobre as janelas e de lá pulando de cadeira em cadeira e outros tantos estão a olhar no vazio, sem nada fazer.”

“Pergunto por que estão sem a agenda e sem as folhas, várias respostas: esqueci, meu irmão rasgou, fiz bolinha de papel, fulano (referindo-se a um colega de sala, ou mesmo de outras salas que durante os intervalos invadem como loucos as salas vizinhas, batem, jogam mochilas pelas janelas, rasgam material, andam sobre as carteiras) pegou rasgou ou fez bolinha de papel, rasguei porque achei que não iria precisar. (ah, seria tão fácil se você os colocasse então em duplas para fazerem a atividade, penso eu). Ah! sim, seria e a responsabilidade e o compromisso ficariam para ser construídos não se sabe quando. “

“Agora aula na sala 09, também 6ª série. Quando chego à porta da sala tenho vontade de sumir, há pelo menos uns dez alunos de pé sobre a bancada debaixo da janela. (...) A garota - infelizmente ainda não sei todos os nomes - que se assenta na última carteira da 2ª fila, perto da janela, pula da bancada para o tampo de uma carteira e depois para o tampo da sua, desce para a cadeira, pula no chão e corre, gritando pela sala atrás de um garoto. Passam na minha frente como se lá eu não estivesse e voltam. Paro na frente de todos e fico olhando, tenho a impressão de que estou numa rebelião. Penso: o que fazer?”

“Volto, não chego a parar um minuto na frente da sala e caio. Caio sem saber como nem porque. Ouço apenas um silêncio e: - a professora caiu!!!! Levanto-me de um só pulo, com algumas dores. Continuo o sermão dizendo que caí certamente porque perdi o equilíbrio em função do comportamento deles."

“Logo que iniciei as aulas perguntei à coordenadora qual era o diagnóstico desses alunos, ela me disse que não sabia e que iria procurar saber. Já são alunos da escola, pelo menos desde o ano passado, e estão na 8ª série. Sempre que lhes peço algo, a turma responde: “ô professora eles num faz nada não, tem poblema de cabeça”.”

A professora Áurea é doutora, com trinta anos de experiência na educação básica. Foi dirigente do Sindute. Retrata o cotidiano escolar que gera a famosa Síndrome de Burnout, o esgotamento nervoso que tira de circulação tantos professores ao longo deste país. Não há paralelo com nenhuma outra profissão. Nem mesmo com o cotidiano de professores universitários, que vivem um outro mundo.Não sei o que comentar. A carta fala por si."

É, meu caro Rudá, nem eu, nem eu...

Quinta-feira, 30 de Abril de 2009

Legal, mas imoral

Um mínimo de dignidade pressupõe aceitar o erro, corrigi-lo e, mais importante, atuar de forma que o deslize não se repita, certo? Nem tanto. Pelo meno é o que se deduz da reação da Câmara Federal diante da enxurrada de denúncias sobre o mau uso do dinheiro público em passagens aéreas e telefones celulares corporativos. Agora, os digníssimos parlamentares querem direito de resposta, na TV. O encarregado da inglória tarefa deve ser o presidente da Casa, deputado Michel Temer. Uma coisa é certa. A peça merecerá atenção, nem que seja só para saber quais argumentos montarão a inusitada produção.

Mas sinais vindos daquele braço do Congresso Nacional apontam para que lado irá a defesa dos deputados. A velha máxima da legalidade da prática certamente fará parte da "resposta" parlamentar. Leia a seguir trecho de matéria divulgada no site Comunique-se. "“A cobertura é desleal”, disse o deputado Cândido Vaccarezza, líder do PT. Ele e outros líderes partidários se queixam do que chamam de generalização das denúncias pela imprensa. Vaccarezza diz que para a mídia todos participaram da farra das passagens. "As regras vigoravam havia 49 anos. Quem está corrigindo, graças à pressão popular, somos nós", defende." Alguém podia lembrar ao nobre deputado que o legal não justifica a imoralidade e, como ele mesmo reconheceu, as medidas que restringem o uso de bilhetes aéreos - indiscriminadamente distribuídos a parentes, amigos , artistas e até para bancar o transporte de clube de futebol - só foram levadas a efeito única e exclusivamente por causa da pressão da mídia e, por tabela, da opinião pública. Noutras palavras, algo que seria obrigação, mera formalidade de uma instituição pública ocorreu por pressão.

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Cinismo puro 2

Os políticos do Brasil não levam em consideração a crise econômica mundial e tampouco a iminência de pandemia da gripe suína. A se supor pelas declarações de deputados, após a aprovação de restrições ao uso de passagens aéreas - agora teoricamente acessível apenas ao parlamentares e a assessores por eles credenciados -, a única coisa que importa são supostas despesas advindas do mandato, nada mais. Eles não enxergam que o salário mínimo não chega a R$ 500 e muito menos o bem comum. No meio vigora o interesse particular. Só isso.

Cinismo puro

O cinismo volta à tona no cenário político nacional. Não é que, após as lideranças partidárias da Câmara Federal aprovarem medidas restritivas ao uso de passagens aéreas na Casa, um deputado propagou na mídia a intenção de seus pares de, agora, discutir aumento salarial. Isso mesmo. Pouco antes de o presidente da Câmara, deputado Michel Temer, decidir que o assunto eram favas contadas e só faltava definir o meio pelo qual haveria sua oficialização, se pelo plenário, via líderes partidários ou, ainda, pela mesa diretora, os digníssimos parlamentares aventaram a possibilidade de elevar os ganhos, dos atuais R$ 16,5 mil para R$ 24 mil. Segundo o deputado José Aníbal, líder do PSDB, “resolvemos a questão das passagens e agora está tudo bem? Não está tudo bem. Existem condições para o exercício do mandato que precisam ser preservadas, e existe também uma necessidade de discutir o salário para ver se ele é compatível com os gastos que o parlamentar tem que fazer". Sem comentários.

Queimarei a língua de novo?

É o risco que corro. Mas vá lá. Apesar das boas atuações de Ronaldo no Corinthians, não vejo como ele pode retornar para a Seleção Brasileira. Acabo de passar pelo portal Globo.com e, surpresa, deparo-me com o resultado de enquete em que, segundo a notícia ali veiculada, 81% de 200 mil pessoas que supostamente votaram querem ver Nazário novamente com a camisa amarela. Penso que tudo não passa de pressão para, quem sabe, dar vigor ao combalido escrete canarinho. Na falta de ídolos naturais, fabricam-se craques nem que seja à custa de maquiar zumbis. Isso mesmo.

Ora, pouquíssimos segmentos da mídia e tampouco os torcedores levam em conta que o futebol brasileiro enfrenta grave crise há tempos e os campeonatos estaduais nem de longe lembram o espetáculo que costumavam representar. Que o diga o certame carioca. Daí que, um treino aqui, outro acolá devolveram a Ronaldo o gosto de jogar num momento particularmente penoso de sua carreira, regada a escândalos de toda ordem fora dos campos. Até lhe inspiraram toques de uma genialidade esquecida em algum lugar do passado. Tudo bem. Parabéns ao Corinthians recém-saído da segundona.

Agora, querer que Ronaldo faça parte do time que disputará a Copa de 2010 é demais. O delírio sobretudo dos meios de comunicação chega ao ponto de tocar a emoção da pátria de chuteiras com recordações do homem caridoso que, um dia, já foi Fenômeno. Pura estratégia de marketing, pois o Coringão é patrimônio nacional e, na condição de agregador da maior torcida do país, busca patrocínios milionários para se manter. Pelo amor de Deus, futebol para nós, brasileiros, simboliza paixão, o que, entretanto, não dá direito a ninguém de explorar o fato com sentimentalismo barato, tosco, como se a própria realidade pudesse ser desprezada. Ronaldo continua gordo, embora em ritmo forte de treinamento. Mas para a mídia ele está em forma. Foi o tom das matérias sobre a vitória do Timão em cima do Santos, na Vila Belmiro, por 3 a 1.

Seleção Brasileira é assunto sério e não pode, nem deve ser tratado ao bel prazer de interesses que não os do esporte das multidões. Com todo respeito a Ronaldo, na Seleção Brasileira não. Já basta a brincadeira de mau gosto que estão sendo os comandados do técnico Dunga nas eliminatórias. Uma das decisões mais acertadas em termos de Seleção foi a do então técnico Luiz Felipe Scolari que, em 2002, não cedeu um milímetro à birra de Romário e não o convocou. Na época, o Brasil sagrou-se pentacampeão mundial. O Baixinho não era tão insubstituível assim. E olha que o ex-craque ainda estava no auge. Foto Globo.com