Já faz alguns dias que senti vontade de escrever um pouco sobre a verdade. Talvez porque nós estejamos num mundo aparentemente repleto de obviedades, sobretudo a partir do desenvolvimento tecnológico absurdo que a humanidade alcançou, e as facilidades dela provenientes, seja importante o indivíduo tomar cuidado com afirmações que pretendem encerrar discussões.
Não creio que a verdade exista. O que há é sua construção, a partir de parâmetros pré-estabelecidos, imersos na cultura dos povos. Daí sua relativização e o perigo que decorre de conceitos que são ao termo imputados, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Nestes casos, não se trata de verdades e, sim, de imposições com o claro objetivo de perpetuar a dominação dos fracos pelos fortes, por meio da manutenção do "status quo".
O fato pode ser observado no estudo da Ciência da Comunicação Social, que deveria contribuir para aumentar o senso crítico e que, ao contrário, aperta as correntes que prendem ou inibem a pessoa de raciocinar. Então, verdade e mentira se fundem de maneira escabrosa. O monstrengo que emerge da inusitada união alija do cenário qualquer reação oposta à meta de atender interesses inconfessáveis, na maioria das vezes de cunho político. Porque é da atuação pública que nascem honra, dignidade, compromisso e seriedade. Mas é dela também que surge o que de mais nojento existe, personficado na falta de caráter, na traição, no desrespeito à vida... Tudo em proveito próprio.
Os meios de comunicação - a imprensa em especial - enquadram o ambiente na perspectiva de linhas editoriais que não se importam com o bem comum. Defendem descaradamente os poderosos. Coloca-os em evidência quando a situação assim o requer. Da mesma forma, obscurecem-nos, fazem descer a penumbra sobre acontecimentos que poderiam interferir negativamente na execução de grandiosos projetos políticos. Tudo para escamotear evidências e solapar a capacidade de interpretar dos pobres mortais.
Sob esse aspecto, a mídia produz anjos da morte, reforça a hipocrisia e enaltece a mediocridade. Destrói e constrói supostas verdades com igual horror.
A edição mais recente da revista Veja traz matéria que ridiculariza o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mais uma vez. Até aí nada de extraordinário, em se tratando de veículo de comunicação que nunca fez questão de esconder a ideologia de ultradireita a que pertence. A novidade está no fato de que, além de atacar o chefe da nação, a revista apresenta-se justamente na condição de arauta da boa e velha imprensa. Como se suas páginas carregassem a lisura necessária ao fiel exercício da nobre profissão.
Duas datas intrigantes são lembradas no calendário litúrgico, em novembro. No dia 1º, a Igreja Católica menciona com especial fervor Todos os Santos, que estariam já na glória a desfrutar do convívio divino face a face. É o que se chama Jerusalém Celeste ou pátria definitiva. No dia seguinte há a comemoração - isso mesmo, comemoração - dos fiéis defuntos, numa clara alusão ao fato de que, para os cristãos, a morte não significa o fim, mas simplesmente a passagem de um estágio a outro de vida. Os restos mortais ficam no cemitério, como que a "semear" o local sagrado, até a 2ª vinda de Jesus, enquanto a alma segue para Deus e, depois, para o purgatório ou para a Jerusalém Celeste, conforme o grau de elevação espiritual.
Num final de semana em que o imbróglio de Honduras parece dar sinais de que, finalmente, será resolvido, e que o índice de mortalidade infantil vem à tona como um dos mais baixos da história, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreve o artigo "Para onde vamos?" em que desanca o ex-companheiro e atual chefe da nação.